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ALFREDO PINTO (SACAVÉM)
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EÍ4JERRAS
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pLFfLD^oPiMO
EM TERRAS DE PORTUGAL
DO MESMO AUCTOH
Jesus e a Samaritana.
Scenas d' Aldeia, (esgotado)
A Moabita.
Telas da Vida.
Abandonada I
A Tetralogia de Ricardo Wagner. (2." edieâoi
Impressões.
Chopin. (tradiicção)
No Remanso do Lar. (chronicas»
Horas d' Arte. ll." serie)
Verdi. (conferenciai
Em preparo
Parsifal.
Músicos, (enchíridíon biographico)
Sol ardente, (romance)
Horas d' Arte. (2.* serie)
Alfredo Pinto (Sacavém)
k km de Poítugal
RECORDAÇÕES — ESBOÇOS — PHANTAZIAS
>4
(ILLUSTRAÇÕES PHOTOGRAPHIC AS DO AUCTOR)
1914
LIVRARIA FERIN
70, Rua Nova du Almada, 74
LISBOA
n-
Passar algum tempo no campo é um ha-
bito que entra na massa do sangue desde o
alvorecer da nossa mocidade, e assim, logo
que a natureza se envolve
com o manto variado das
suas cores, pensamos logo
em abandonar Lisboa e
vermo-nos livres, por al-
guns mezes, da vida buli-
çosa da capital, com tudo
que etla possue de simu-
lado na sua vida íicticia e
pouco hygienica.
Assim uns tempos no
campo são um verdadeiro
bálsamo de conforto, de
tranquillidade á nossa existência physica e
intellectual.
Na ^tjõôr parte da gente não existe, infeliz-
mente, a ideia nitida que se deve ter de uma
estada no campo.
Geralmente todas as familias abandonam
Lisboa pelo espirito comesinho de seguirem a
BILHA DE SEGREDO
(Época da rainha D. Leonor)
EM TERRAS DE PORTUGAL
moda de : ir para fóra^ e lá terem a mesma
vida da cidade, com o mesmo luxo das toilet-
tes, com todo esse rosário de ideias balofas e
ridiculas que enche os cérebros das mães de
familia, em que as thermas, praias, etc, são
apenas pretextos para mostrarem as filhas e
verem se as casam ricas o mais depressa pos-
sível !
Todas as infinitas belezas que a natureza
lhes oíTerece n'essas terras para onde vão per-
manecer alguns mezes, passam desapercebidas
como verdadeiras vulgaridades.
Por isso direi que sempre me faz pena não
comprehenderem o campo para onde vão, e
saberem gozar d'elle com aquelle amor e cari-
nho que elle tanto merece.
Mas deixarei estas considerações, pois
malhar em ferro frio é tempo sempre perdido,
e entrarei no assumpto d'estas notas, d'estes
esboços colhidos a esmo que apenas têm um
íim — contar as minhas simples impressões
de mero viandante por esses montes e valles
d'esta nossa querida terra ; impressões não re-
vestidas com a burilada linguagem d'um Ber-
nardin de S. Pierre, que tanto adorava o
campo, nem como Victor Hugo nos seus livros
sobre o Rheno, mas sim com o estylo simples
de um forasteiro que longe de Lisboa, vae
colhendo aqui e alli pequenas notas impres-
sionistas que o meio lhe oíferece, lodo esse
scenario campezino matisado de uma serie
EM TERRAS DE PORTUGAL
infinita de encantos variados, symphonia de
de cores, crescendo de tons quentes que nos
causam a vertigem
do Bello em todo o
seu esplendor.
As thermas das
Caldas da Rainha,
onde actualmente me
encontro, conheço-as
ha vinte e nove an-
nos, e a vagarosa
evolução que tem
soíírido, tem passado
perante os meus
olhos com um grande
interesse.
Não conheço ter-
ra próxima de Lis-
boa que reúna tantos
atractivos como as
Caldas.
Mas terá esta villa
aquelle encanto de
tranquillidade que ti-
nha antigamente antes da chamada civilisação
do caminho de ferro? Decerto que não, mesmo
na estructura intima da sua vida a differença
é radical.
Voltemos um pouco a vista ao passado
para fazermos melhor o parallelo com a vida
presente.
TORRE MATRIZ
-8
EM TERRAS DE PORTUGAL
Partia-se de Lisboa da estação de Santa
Apolónia, e chegava-se á Azambuja pelas
1 1 horas da manha ; deligencias, largas car-
ruagens, onde podiam levar em cima duas
UM TRKCHO PA MATTA
e três malas, conduziam-nos até ás Caldas,
uma distancia de dez léguas. As primeiras
povoações por onde passávamos eram Aveiras
de Baixo e depois Aveiras de Cima, Alcoentre,
d'ahi a léguas o lugar do Cercal, onde estacio-
návamos duas horas para almoçarmos e para
descanço do gado.
Ainda me recordo que nos davam em
uma estalagem, canja e bella galinha cosida
EM TERRAS DE PORTUGAL
i;m híecho das cai.da.s, ao cahiu da takdk
IO
EM TERRAS DE PORTUGAL
com arroz e presunto. Hoje, esla estrada,
segundo me consta, está horrível, havendo
apenas transito de galeras.
N'estas thermas não havia então o movi-
mento de famílias que se vè hoje ; o máximo
A BERLINDA
meia dúzia, formando todas uma só familia,
sem os cancans que nos atormentam agora!
A vida que se passava era a seguinte : de
manhã, tratamento no hospital onde havia o
tradicional copinho dado pelo velho Sebastião
que Deus tem ; durante o dia, no passeio da
Copa, jogava-se o arquinho, as senhoras co-
siam e bordavam : mais tarde houve um jogo
de Croquet devido á iniciativa da familia Bar-
ros Lima e José Sacavém.
EM TERRAS DE PORTUGAL
II
Também havia o jogo da malha, e ainda
me recordo de ver o falecido escriptor Luciano
Cordeiro joga-la com enthusiasmo. Tempos
que não voltam !
o CANTAR DAS LOAS
Depois de jantar, que era por volta das
cinco horas, ia-se á matta real, uns subiam
ao pinheiro da Rainha, outros espalhavam-se
pelas ruas a jogarem jogos de prendas e arqui-
nho s.
Quando a noite vinha já bastante próxima,
todos desciam ate ao club, onde se dançava
animadamente até ás dez horas, sendo então
12 EM TERRAS DE PORTUGAL
servido o conhecido e tradicional chá com fa-
tias e bolachas, alem de copos com agua cha-
lada. Este chá era fornecido pela direcção do
Club, sendo digno de elogios pelo asseio e
abundância.
Aos sabbados então, antes do club, entra-
va-se na egreja do hospital onde se cantava
a ladainha e vários cânticos á Virgem do Po-
pulo (*); diversas senhoras cantavam no coro,
nunca faltando o conhecido padre António
d'Almeida, hoje residente em Óbidos, que alem
de ser um eximio caçador de perdizes, possuia
uma agradável voz de barvtono.
-^ No dia I 5 de agosto havia festa rija n^csta
egreja, pregava geralmente o padre António.
Os cantores é que tiravam a Fé ao maior
crente, eram músicos da philarmonica ; poderá
o leitor avaliar que serie de desacatos musicaes
elles nos oíTereciam aos nossos ouvidos !
O conhecido Céu de vidro d'hoje, era anti-
gamente um modesto corredor entre os dois
corpos do club, tendo apenas por tecto a abo-
boda celeste, seria menos commodo, mas era
muito mais poético. N'essa noite era coberto
(*) Foi n'esta egreja que no anno de lõQá foi representado
Tim coito de Gil Vicente o de S. Martinho, pedido feito pelos ha-
bitantes das Caldas em honra da rainha D. Leonor, então viuva
de D. João II, que se encontrava nas Caldas O auto è pequeno
e Gil Vicente pôz a seguinte rubrica : «Xão foi mais porcpie foi
l^eãido muito tarde». O auto é uma alusão á caridade da rainha
sendo esta obra talvez a i^rimeira representada fora do j^aço
6 da corte.
ÉM TERIAS DE PORTUGAL
por um toldo, e transformavam-no em um jar-
dim, lodo illuminado a copos de Cíjres. Hoje,
como disse, é uma passagem envidraçada,
ponto de reunião para a tná lingua e para os
o CAURO DOS AXJ03
namoros^ para estes nâo é bem um ceu de
vidro, mas um ceu aberto.
Havia muitos passeios em burros a S. Mar-
tinho do Porto, ás Gaeiras, Óbidos e de car-
ruagem a Rio Maior, e quando chegavam a
esta villa eram sempre entradas iriumphantes
com marchas aux-flambeaiix, guitarradas, etc.
Hoje a vida das Caldas é totalmente diffe-
í4
EM TERRAS DE PORTUGAL
rente ; o caminho de ferro veiu lançar a nota
do modernismo, a concorrência augmentou
extraordinariamente. O Parque da Copa e a
Matta soífreram com o administrador Berquó
profundas modificações ; vieram os sextettos
substituir o velho Pavão que executava no
A CHEGADA DO CYKIO
piano umas palsas horríveis e uns lanceiros
detestáveis, veio a antiga Banda da Guarda,
em vez da philarmonica da terra, appareceram
o Tennis^ o jogo da bolla, Fooi-^all, os con-
cursos hypicos, etc.
Uma antiga cavacaria das conhecidas Men-
dricas que existia na Praça, ponto de reunião
á tarde e á noite de amena cavaqueira onde
se juntavam entre outros Mariano Pina e Ra-
EM TERRAS DE PORTUGAL
phael Bordallo, acabou ! Raphael Bordallo,
com o seu grande talento e fino conversador
fazia-nos passar alli horas agradabilíssimas.
No mez de setembro havia a tradicional
passagem dos cyrios para a Nazareth.
ASPECTO DO MERCADO
Eram três, o das Caldas, o da Prata
Grande e o d'Obidos. Tanto na ida como na
volta os cyrios davam três voltas á roda da
Praça e iam ao largo da Copa, em frente da
porta do hospital, cantar as Loas. Somente o
d'Obidos é que não cumpria ás vezes estes
usos, atravessava a villa e nada mais ! Se-
l6 ÉM TERRAS DE PORTÍJGAt
gundo me disseram, por causa de certas riva-
lidades entre as duas villas. Como curiosidade
eis algumas Loas (*") cantadas pelos anjos dos
cyrios :
i." Anjo
Parece que nossos pães
Nos dizem a rijos brados
As vossas crenças sagradas
Não per cães, filhos amados.
2° Anjo
A" Lusa Sião ! batei
As sendas que já batemos
Dai ao palácio da Pátria
As honras que nós lhe dêmos.
3." Anjo
E nossas cinzas lançadas
Debaixo da terra fria,
Volvendo-se reanimadas
Palpitarão de alegria.
Todos
Corramos ó caldenses, vamos já,
No mais vivo transporte d'alegria,
Eender divinas graças a Maria,
Que por nós esj^erando está.
(*; o As Ldas são ainda persistentes nas romarias chamadas
Cyrios ; junto da ermida do Cabo, existe uma edificação cha-
mada a Opera, onde o Cvrio de Lisboa fazia varias representa-
ções, de que falia Eibeiro Guimarães ; á chegada dos forastei-
ros ao adro da egreja, e na entrega da bandeira aos festeiros do
anno futuro, os três Anjos que os acompanham recitam Loas,
com versos apropriados e que i^rovocam lagrimas. A Loa é já
uma espécie de bando ou jjregão, como o Cri, do antigo theatro
francez.»
(Eschola de Gil Vicente por Theophilo Braga, pag. 529),
ÈM tERRAS DE PORtUCÁL
í?
Terminadas as Loas, a musica executava
o hymno nacional, estalavam foguetes e o
cyrio continuava na sua derrota.
Hoje todos estes costumes caracteristicos
o SOBREIRO DA FEIRA
do povo foram prohibidos, e apenas ficaram
umas pobres e modestas festas de egreja.
Emíim se esta terra se parece agora com
tantas outras^ perdeu, quanto a mim, o seu
antigo encanto, pois passou, infelizmente, a
ser um bairro da nossa capital, no luxo dema-
siado das senhoras e nos cancans habituaes da
nossa sociedade.
l8 EM TERRAS DE PORTUGAL
Sinto saudades d'esses tempos passados
que jamais voltam. . .
Ah ! pensarmos no passado é sempre uma
dôr para a nossa alma. Passam perante nós,
como imagens sagradas, figuras e factos, tudo
revive perante o pensamento, e o nosso íntimo
confrange-se, quando cahimos no presente, na
realidade ! ÍUusóes que se desfolham como as
flores estioladas pelo correr do tempo, um
mundo que foi realidade e que é apenas agora
uma serie de visões semi-apagadas.
lí
Em plena soalheira.
Dias de sol claro, como existem em terras
portuguezas.
Por todo o campo uma luz cspalha-se
cheia de intensidade, havendo nos casaes, nas
fazendas, nos atalhos, iníinitas maravilhas de
tonalidades de cores, em que as sombras se
alongam em formas variadas e caprichosas.
N^aquellas horas a natureza reveste-se de
esplendor, que já começara no raiar da aurora
e que em breve declina no crepúsculo da noite.
Varias estradas partem das Caldas, como
a d'Obidos, Foz do Arelho, Rio Maior, S.
Martinho do Porto, etc, mas nenhuma tem
para mim o encanto da estrada que liga esta
villa com o lugar do Couto, alongando-se
depois até á povoação Sallir dos Mattos. :
Qual caminheiro, absorvendo na alma.
todas aquellas variedades que o campo me,
oííerecia, sahi das Caldas quando o sol lan-
çava cheio de vigor, os raios sobre a terra.
Ao principio a estrada serpenteia uma
pequena collina, íicando á direita, encostas de.
iO ÉM tERRAS DE PORTUGAL
vinhas, á esquerda um pequeno valle que se
alonga em vastos campos onde fica a villa das
Caldas ; a nossa vista muito ao longe, divisa
um trecho de S. Martinho e os morros da
entrada da bahia.
Depois a estrada desenha-se plana entre
campos de vinha e pinhaes, onde aqui e allí
diversas casitas muito brancas, ostentando nos
telhados abóboras còr de ouro, que mais pare-
cem ninhos de princezas encantadas, chamam
a nossa imaginação a vaguear nos labyrinthos
da phantazia.
Quem não quizer seguir, como eu, este
lanço de estrada tão conhecido para mim,
pode retomar a estrada, então plana, metten-
do-se por uma azinhaga que íica logo ao sahir
da villa, depois de se encontrar um grande
tanque onde geralmente um grupo de lava-
deiras batem roupa branca de neve, ao som
de canções simples, mas de rythmo agradável
e melódico.
A natureza jazia em uma tranquillidade
mysteriosa, e atravez d'aquella azinhaga assom-
breada, a passarada chilreava, voltejando de
ramo em ramo, misturando-se com as vozes
dos homens que andavam na cava d'um
campo próximo. Uma ou outra borboleta
voejava por entre os silvados.
Quasi a meio d'este caminho, como reti-
rado, escondido, existe construído, um pe-
queno monumento até agora despresado. Faz
EM TERRAS DE PORTUGAL
21
recordar ás gerações futuras um acto de gra-
tidão de uma cura realisada com um veio de
agua férrea que alli corria antigamente em
abundância.
.Mu^U.Mt,^lu DA AZINHAGA.
Hoje a agua encontra-se desviada por
causa de umas escavações que alli fizeram.
Até a este anno o monumento tinha per-
manecido em um estado de porcaria extraor-
dinária, hervas cresciam por toda a parte, a
22
EM TKRRAS DE PORTUGAL
inscripção quasi desapparecida, emfim o nosso
chronico desleixo.
Porém, ha dias quando por lá passei tive
a agradável impressão de ver ludo restaurado
e limpo!
Não posso deixar de fallar aqui no sr.
Eduardo Neves, presidente da Gamara das
CAPKLLA Dli 8. JACYKTllO
Caldas, que cheio de interesse cuidou d'este
monumento, sempre despresado até a esta
data !
O monumento é feito de pedra e cal tendo
talvez dois metros d'altura, vendo-se na frente
a seguinte inscripção :
DA EXFERMA HUMANIDADE A BEXEBUCIO
EM MEMORIA DO BEM JÁ ALCANÇADO
FOI ESTE PERDURÁVEL MONUMENTO
POR BENÉFICA JÍÂO AQUI VOTADO.
EM TERRAS DE PORTUGAL
23
24
EM TERRAS DE PORTUGAL
TANTO PODE A GRATIDÃO
E DE BEM PUBLICO O ZELO
PRAZA AOS CÉUS QUE HUM TAL EXEMPLO
SIRVA AOS MORTAES DE MODELO.
1819
Ignoro o nome da pessoa que o mandou
edificar; tendo pedido a dois amigos meus
FONTE DE SANTA KITTA
para investigarem nos archivos da Camará
qualquer documento elucidativo nada se tem
encontrado. Apenas soube depois que a ins-
cripção foi feita por Agostinho Paulo d'An-
drada Mendóça.
No trajecto até ao Couto, encontramos
digno de nota a Fonte de Santa Rita, sempre
EM TERRAS DE PORTUGAL
25
muito caiada de branco, tendo em um nicho a
imagem da santa. Mais adiante a quinta do
Arieiro, com magnifica nascente, e próximo
do lugarejo, semi escondida, entre campos de
vinha, isolada, uma capella, cujo patrono é
UMA RUA DO COUTO
S, Jacyntho, tendointeriormente magnificos
azulejos.
O lugar do Couto é muito curioso pelo
lado rústico, quasi selvagem 'que apresenta ;
apenas uma rua central, andando em plena
liberdade galinhas, patos e porcos. Vários
becos cheios de estrumeiras encontram-se
26
EM TERRAS DE PORTUGAL
d'um e d'outro lado da rua central. As casas
em relação á hygiene das ruas. As mulheres
são feias e tisnadas pelo sol, e durante o dia,
emquanto andam pelas fazendas no labutar
quotidiano^, deixam as crianças no lugarejo
também em pleno convivio com os animaes !
A CAPELLA DO fOUTO
Existe no Couto o typo de mendigo que
anda de porta em porta esmolando, e conforme
é a importância da espórtula assim elle canta
mais ou menos tempo. Tem a perfeita vida
de vagabundo, recebendo agasalho d'esta po-
bre gente.
A ermida é junta ao cemitério, ficando no
fim do lugar. Tem um aspecto modestíssimo,
EM TERRAS DE PORTUGAL 27
na frente um terreiro d'onde se avista um
grande valle, tendo ao fundo uma cadeia de
serras, e muito ao longe espalhadas diversas
povoações como : Casaes da Ponte, Sallir dos
Mattos, Cruzes, Guisado, Casal da Areia,
Torre, Barrantes, Infantes, etc.
PKAIA L>E S. MARTINHO
Já a noite se avisinhava quando deixei
aquelles sitios. O modesto sino da ermida ba-
dalava sons das Ai^e Marias; por toda aquella
região houve uns certos instantes, em que a
nossa alma se elevou a regiões sagradas.
Uns trabalhadores que ao longe cavavam,
pararam de trabalhar e ficaram como suspen-
sos ouvindo aquelles sons que echoavam pelos
campos.
28 EM TERRAS DE PORTUGAL
Então á minha memoria vieram aquelles
notáveis versos de Lamartini, o Isolemeul:
«Cependant, s'élauçant de la flèche gothique,
Un sou religieux se rèiíand dans les airs:
Le voyageur s^arrête, et la cloche rustique
Atix derniers bruits du jour mele de saints concerts."
O sol no horizonte rubro de fogo despe-
dia-se da terra passando para outros mundos.
Pastores passavam com os rebanhos em
direcção ás arribanadas, levantando nuvens
de poeira.
Assim toda a paysagem ia desapparecendo
pouco a pouco em sombras envolventes de
mystcrio.
A noite veiu beijar a terra e o silencio
reinou profundamente em toda aquella região
III
Eqi pleno campo, quando o sol despontava
no horizonte e vinha encher de luz os prados
períumados e os valles floridos, já eu estava
lendo á janella do meu quarto um artigo de
Emílio P^aguet, referente a ferias de estudan-
tes. O illustre escriptor, fallando do mez de
setembro, diz : ^<^Je liii voudrais iin joii uoni,
faíl de joie, d'abondance, de grace plauíiireuse
et d'un commencemeut seulement de mélancolie
doitce »
Se Emilio Faguet conhecesse o mez de
setembro n'esta região, chamar-lhe-hia o mez
da Luz , pois toda esta paysagem é illuminada
de um tal brilhantismo de sol, que as estradas
e regatos assemelham-se a filas de prata muito
brancas que se alongam dolentemente.
A natureza, os contornos das arvores, os
lugarejos espalhados ao longe nas encostas
dos outeiros, iam apparecendo, pouco a pouco
e a luz ténue da madrugada ia cedendo o lugar
a outra mais scintillante, conforme ia subindo
no horizonte o grande astro da vida.
3o EM TERRAS DE PORTUGAL
Uma ave passou piando perdendo-se de-
pois de vista para o outro lado da montanha,
e tive vontade de lhe perguntar como em uns
versos de Xavier de Maistre :
«Parle-moi du bruit des torrents,
Des lacs profonds, des frais ombrages,
Et du murmure des feuillages
Qu'agite Phaleine des vents,»
Deixei por momentos o livro que estava
lendo, e pensei em todos aquelles que não
comprehendem as mil variedades de attracti-
vos que o campo encerra.
No campo a nossa alma expande-se, e seja
artista ou não, ha-de por força reconhecer o
encanto do Bello, que alli está vincado nos
menores detalhes, n'esses pequenos nadas que
são sempre grandes paginas do glorioso livro
da creação.
Para què nega-lo? Não nos sentimos pe-
quenos, verdadeiros pygmeus, quer nos encon-
tremos perante uma grande montanha, ou na
frente d'um abysmo profundo ? !
As arvores seculares com as suas copas
frondosas espalhando sombras benéficas e
agradáveis, onde as aves se aninham quando
a noite chega e d'onde com os seus gorgeios
louvam o romper da aurora, não serão revela-
ções do poder do Creador?
As azinhagas, os atalhos floridos, os rega-
tos cheios de írescura, as fontes murmurantes.
EM TERRAS DE PORTUGAL
3i
não indicarão um grande poder suggestivo ao
pintor, ao musico, ao poeta, atra vez da gamma
das cores, da combinação dos sons, da escolha
das rimas?
O meu pensamento ia assim divagando e
o sol já alto illuminava de tal intensidade os
ESTRADA DO AYENAL
campos, que toda a paysagem se fundia agora
cm uma symphonia de colorido intenso, como
se quizesse revelar ao meu pensar que se
achava revestida do seu manto de brilhan-
tismo, para a admirar, e lhe prestar preito e
homenagem.
Sahi para poder respirar melhor aquelle
ar matutino perfumado pelas singelas fiôres
32 EM TERRAS DE PORTUGAL
dos atalhos, e embrenhar-me por aquelies
pinhaes assombreados e atapetados de espessa
caruma.
Toda a atmosphera eslava luida por uma
leve brisa que corria mansamente.
Gente que passava dava-me os bons dias,
com aquelie aspecto de ingenuidade que não
se encontra nas cidades.
Os topos dos pinheiros rangiam ao vento,
e sons de vozes chegavam aos meus ouvidos,
semi-confusas.
Das chaminés das casas, brancas como
noivas, subiam espiraes de fumo que se ele-
vavam pelos ares; eram os primeiros lumes,
iniciavam-se os primeiros labutares dos lares,
d'aquella gente pobre, humilde, de corações
singelos e simples.
Os trabalhadores no campo accendiam os
lumaréos entre duas pedras que sustinham
uma negra pannela cheia de caldo fumegante.
Em todas aquellas almas rústicas havia o
estigma da simplicidade, despido de conven-
cionalismos sociaes. Todo o dia labutam e a
terra que lhes absorve o suor do rosto, é a sua
segunda mãe. E' o torrão que os viu nascer,
que lhes amparou os primeiros passos e que
os viu pela primeira vez chorar.
Ha typos no nosso campo que, vistos uma
vez, jamais se olvidam. Maria Angela está
n'este caso.
Maria Angela ? ! perguntará o leitor, admi-
EM TERRAS DE PORTUGAL
35
PlNfitAL DA COPA
34 EM TERRAS DE PORTUGAL
rado de vir fallar aqui d'Lima pobre creatura,
quando o meu pensamento divagava pelas
regiões da phantazia!
E' que Maria Angela encarna na alma
o soífrimento mais nitido, mais característico
da tristeza, da saudade, acariciada apenas por
essa fazenda, por esse rincão de oliveiras lá ao
longe junto ao rio.
Maria Angela era considerada a moçoila
mais formosa do seu tempo ; ainda hoje existe
o José Vicente, barbeiro, que attesta que fez
andar á roda muitas cabecitas da sua moci-
dade.
Hoje... são apenas restos de formosura
passada ; desgostos vieram uns apoz outros e
os annos foram pouco a pouco decompondo
aquellas linhas do rosto, dos peitos, das ancas,
restando apenas o olhar cheio de carinho e
bondade.
Quando nova, o seu casamento com o
Manuel da Quinta foi origem de festa rija na
aldeia, o sino da capella repicou todo o dia!
Se ella era a mais linda do lugar!
O marido, passados annos, morreu de fe-
bres, deixando-a abandonada com três filhi-
nhos, que ella foi amparando á custa de duras
economias até se fazerem homens. Mas a des-
graça de Maria Angela não ficou por aqui,
parece que uma estrella funesta a acompa-
nhava sempre !
O mais velho, o António, como militar,
EM TRRRAS DK PORTUGAL
lá morrera nas Africas defendendo como um
heroe a bandeira da sua querida Pátria ; o do
meio, o José, suicidára-se por causa da mulher
que o enganava ; o mais novo, o Thomé, atra-
vessara-lhe o peito uma bala, por engano,
n'uma desordem em um arraial.
Todas estas dores reunidas formaram a
maior tortura da sua alma.
Os annos passaram e hoje a Maria Angela,
longe do mundo, orando apenas pelos seus
que Deus lá tem, ampara conforme pode os
desgraçados que á sua porta batem.
Maria Angela é caritativa como a terra
que ella amanha; esta dá-lhe trigo, centeio,
milho, para a desgraçada repartir pela pobre-
za; e parece que as lagrimas dos pobresinhos
que ella acolhe lhe vão regar a fazenda, pois
esta está sempre tão viçosa !
Pelo menos é a lenda que corre pela
aldeia. . . e não será agradável acreditarmos
n'ella ?
IV
As chuvas ultimamente cabidas deram aos
campos o aspecto d'um grande vergel perfu-
mado, em que os tons verdes de variadas to-
nalidades palpitam cheias de viço e frescura.
As oliveiras, carvalhos, plátanos, choupos,
mais além os valados, muito limpos da poeira,
apresentam no seu aspecto uma alegria incons-
ciente que o homem adivinha pelo prisma da
sua analyse.
Os pinheiraes desprendem de si um per-
fume vivificante ; as fontes, os regatos, as ver-
tentes dos montes, são sagradas imagens de
aspectos difterentes da natureza quando esta
se recama de toda a força de Belleza trans-
cendente.
Lá ao longe passam rebanhos para o
pasto; caminham na sua tranquillidade habi-
tual e monótona, ao passo que o pastor os
vae conduzindo, tocando na avena rústica
o thema de qualquer canção, desabrochada
na sua alma simples e ingénua.
Para mim o pastor é um symbolo de sim-
plicidade. O rapazola que conduz o gado todo
38 EM TERRAS DE PORTUGAL
O dia, que vive isolado, pelas charnecas em
fora, possue um alto grau de poesia campe-
zina, é uma fonte de psychologia emotiva e
subtil.
O pastor é um ente que vive affastado de
toda a serie das manifestações do saber hu-
mano, separado da melhor descoberta, alheio
a todo o alimento intellectual do nosso eu.
O seu horizonte de pensamento é semelhante
ao visual, acanhado e curto, tendo por limites
o ceu que o cobre e a charneca immensa que
elle pisa sob os raios do sol.
Se fallarmos ao pastor na menor desco-
berta, responderá por uma gargalhada, sem
mesmo comprehender as palavras que lhe diri-
gimos. E essa gargalhada franca, não será
svmptoma de estupidez, mas o signal de uma
-intelligencia inculta.
No pastor, apesar de desconhecer a exis-
tência, no que ella possue de mais bello dentro
da sua razão de ser, como nós a conhecemos,
vemos n'elle o protótipo do artista em em-
bryão !
O pastor é artista de nascença, foi o meio
campezino que lhe dictou na alma uns limi-
tados princípios de esthetica.
O murmúrio das fontes, o chilrear das
aves, o ranger das arvores pelo vento da tem-
pestade, o scenario que os campos lhe apre-
sentam quando lhe mostram a mistura irregular
das diversas cores da carvalhiça, dos pilri-
EM TERRAS DE PORTUGAL
39
teiros, do tojo, da carqueja, do rosmaninho,
do carrasco, das giestas e outras plantas cam-
pezinas, tudo desperta n'elle a ideia do Bello,
d'uma forma rudimentar, pois que o ignora^
mas que o dispõe a possuir uma alma embe-
bida sempre n'uma espécie de Belleza ainda
que pura, ingénua e simples.
Quando elle, no cimo de um outeiro, iso-
lado, pega da avena, feita por elle, e toca uma
canção, não veremos uma alma vibrante de
sentimento ;M
De tez tisnada pelo sol, cabello desgre-
nhado, peito semi-nu, olhar vivo, contempla
4o EM TERRAS DE PORTUGAL
carinhosamente a terra que o viu nascer e
chama-lhe sua segunda mãe. Desde o romper
da aurora o pastor vae caminhando e os sons
da sua flauta rústica echôam pelos valles ca-
vados entre abysmos, perdendo-se no grande
espaço onde reina o silencio apenas quebrado
pelos chocalhos do gado.
Eis um trecho de paysagem que o pintor
poderá reproduzir na tela, mas por melhor
que seja a obra do artista nunca traduzirá
toda a sua belleza philosóphica, nascerá uma
paysagem quasi sem vida, quasi morta!
Se queres leitor, conhecer bem a paysagem
portugueza, embrenha-te pela charneca, vive
na existência semi-selvagem das serras, con-
templa frente a frente os abysmos, entra no
lar do camponez, do humilde cavador, analysa
o seu labutar quotidiano, ouve-lhe as canções,
ora alegres como o trinar dos pássaros, ora
tristes como o murmúrio das levadas, depois
então verás como o artista é deficiente para a
traduzir no numero infinito das suas phases
suggestivas, na gamma dos seus aspectos en-
cantadores !
Como disse, a chuva viera refrescar os
campos verdes^ vibrantes, como preciosa esme-
ralda.
Do alto de uma pequena colina via na
minha frente um trecho da villa das Caldas
semi-escondida pelas copas dos arvoredos ;
na hnha do horizonte as areias brancas da
EM TERRAS DE PORTUGAL
41
Foz do Arelho e a lagoa d'Obidos, espelhada,
semelhando-se a um triangulo de prata.
A' esquerda mais ao longe, divisavam-se
as ruinas do castello d'Obidos, sobranceiro a
todas as redondezas; jaz alli solitário, der-
ruindo-se pouco a pouco.; uma pagina da
PASSANDO UM RIBEIRO
nossa historia, restos de uma época de con-
quistas e heroicidades!
Com o seu aspecto negro e majestoso, de-
senhava-se ao longe em Imhas severas, ser-
vindo de contraste áquelle fundo de paysagem
toda garrida e respirando vida.
Um bando de pombas brancas sahiram de
42 EM TERRAS DE PORTUGAL
um pinhal, e lá foram voando, batendo as azas,
brancas como a espuma do mar, leves, muito
leves !
Nos campos de vinhas alli próximos, junto
ao lugar do Avenal, ranchos de raparigas, es-
palhadas aqui e alli, andavam vindimando sob
uma intensa luz de sol brilhante.
Mais além diversas dornas, em carros de
bois, estavam quasi cheias de formosos cachos
que em breves horas estariam nos lagares,
«Les granas chars fjemissants qui reviennent le soir»
como disse Roujon referindo-se ás vindimas
da Gascônha.
Havia na fazenda um movimento desu-
sado; todos traballiavam com afan. Vinho
novo! Vinho novo! O sangue do trabalhador!
Entrei na herdade por uma tosca e negra
cancella de ripado, um cão branco com malhas
pretas correu logo a ladrar-me, era um claro
aviso que estava em terra extranha.
— Gala-te Fiel, disse uma voz forte solta
do meio da vinha.
O animal foi prompto em obedecer e dei-
xou-me em paz. Apezar de dizerem «cão que
ladra, não morde» não me foi muito agradável
a visita do Fiel. . .
Era um quadro digno de vêr-se, ao passo
que o labutar enchia de alegria aquellas almas
rudes e simples, as raparigas, como gorgeios
EM TERRAS DE PORTUGAL 43
d'aves, cantavam quadras como estas que eu
pude anotar:
Perguntei ao sol se viu,
A' lua se o encontrou, -
A's estrellas se souberam
D"um amor que me deixou.
Majaricão da jauella,
Todo bordado aos ramos.
Os diasque te não vejo
Para mim i^arecem annos.
Quatro flores em meu peito,
Fizerami sociedade.
Malmequer, Amor Perfeito,
O Martyrio e a Saudade.
Eu heide-te amar, amar,
Quer tu queiras, quer não queiras
Eu tenlio por minha bauda
Quatrocentas feiticeiras.
Subi ao ceu por uma ameixa,
E desci pov um cacho d'uvas
Ninguém se fie nos homens
São falsos como Judas.
A rapariga ao cantar esta quadra, sorriu
e olhou para mim, um olliar franco ; mas tra-
duzindo talvez um pouco de malicia.
Os versos eram dirigidos a mim, com cer-
teza, pois eu já vinha bastante longe e ainda
ouvia as gargalhadas das raparigas !
44 EM TERRAS DE PORTUGAL
Quando d'ahi a dias encontrei casualmente
na estrada a rapariga dos versos, parecia que
a sua voz ainda me dizia aos meus ouvidos :
«Ninguém se fie nos liomens
São falsos como Judas.»
Ella olhou para mim, abaixou os olhos,
corou e sorriu-se.
Reconhecôra-me . . . mal sabia ella que eu
já lhe perdoara ha muito a injustiça.
V
Dias de chuva ! Responderás tu, leitor,
muito convicto: «Dias de verdadeiro marty-
rio.» Engànas-te por completo. Cá pelo campo,
não existe um momento que não seja baíejado
por um terno lampejo de poesia ideal.
Se toda a natureza parece desahrochar-se
n'um enlevo de alegria, quando bebe sôfrega
os raios do sol, também em dias de ceu par-
dacento e de constantes chuvas, os campos
que se alongam perante nós, dão-nos a illusão
de um ente cheio de paciência evangélica,
pois suportam as bátegas d'agua, as fortes
ventanias, com um heroísmo de martyr, sem
o menor queixume ! Apenas o ranger dos tron-
cos das arvores seculares, assemelha-se a gar-
galhadas de bruxas sabidas das cavernas das
montanhas, e os ribeiros correm sinistros ba-
tendo com violência pelas pedras espalhadas
aqui e alli ao capricho da sorte.
O ceu rasga-se como por encanto, as nu-
vens acastelladas desagregam-se, abrem-se
clareiras azues, e raios de sol beijam as cristas
46 EM TERRAS DE PORTUGAL
dos outeiros, os prados, os campos de vinha,
os lugarejos.
Parece que um novo dia nasce !
Então a natureza, sob aquella luz cheia de
poeira d'ouro, apresenta um aspecto como se
estivesse com um manto de diamantes. As
gottas vão-se diluindo pouco a pouco, e as
flores humildes^ semi-escondidas nos atalhos,
parecem que sorriem de alegria.
Abrem-se as portas das casas, e as crian-
citas saltam para o meio da estrada, alegres
como bandos de pardaes.
Em um casalito lá ao longe, meio enco-
berto por um pinhal, appareceu logo a Maria
Rita rodeada dos netos, tmi casal de anjos,
como ella lhes chamava.
Por estes sitios todos conhecem a Maria
Rita ; já tem setenta e três annos e está rija
como ferro, sendo a admiração de todos !
O filho, o Manoel;, mais a mulher encon-
tram-se no Brazil a tentarem fortuna, e para
não deixarem a velhinha sosinha e desampa-
rada com aquella idade, coníiaram-lhe tempo-
rariamente o cuidado dos filhos.
A' Maria Rita custara-lhe muito a partida
do filho para as terras da America, ella bem
sabia que ia á procura de melhor futuro, mas
a separação horrível foi para o seu coração de
mãe um sangrento golpe, pois pensava sempre
que jamais o tornaria a ver.
Por issOj vendo nos netos, n'aquellas criaii-
EM TERRAS DE PORTUGAL
47
fHoupsa
48 Em terras de PORTUGAL
ças, ainda o sangue que lhe corria nas veias,
a sua dor de eterna saudade ia-se diluindo
por aquelles dois pequenos entes, amparan-
do-os com os carinhos de avó, com um amor
terno e puro, como cristalina era a agua do
rio que reflectia, em uma deliciosa miragem,
os elegantes choupos das suas margens.
Depois do jantar ao meio dia, era sabido
que Maria Rita se assentava no degrau da sua
porta, assomhreada por uma frondosa latada,
e onde um melro, em uma simples e singella
gaioUa de canna, lançava alegres cantos.
Maria Rita fazia meia, os netos, sentados
aos pés, olhavam para ella, ávidos de curiosi-
dade ; era também a hora em que a avó lhes
contava varias historias que ella sabia de cór
desde os primeiros alvores da sua juventude.
Nunca me cançava de contemplar aquelle
quadro de familia, que dentro das suas cores
de simplicidade, dimanava um encanto infinito
de paz e bondade.
— O' avosmha conta-me hoje a historia do
macaco'^ disse o mais velho cheio de impa-
ciência.
— Hoje ha-de ser a historia do castello
encantado que eu gostei tanto, disse a pequena
beijando muito as mãos da avó.
— Hoje os meus queridos netos, terão
uma historia nova muito bonita.
— Qual ?
— Gomo se chama ?
EM TEtíHÀS DE PORTUGAL 49
E as duas crianças doidas de contenta-
mento, batiam com as mãos umas nas outras,
como avesinhas sacudindo as azitas quando
os pães se aproximam do ninho.
— A historia chama-se a Prince{a dos ca-
bellos. de luar; attenção meus meninos.
Fez-se um grande silencio e Maria Rita
continuando da mesma forma fazendo meia,
com voz pausada começou :
— Era uma vez um grande fidalgo, que
vivia no alto de uma montanha em um cas-
tello feito de crystal e pedras finas. Vivia
sosinho, apenas com os criados, sempre triste,
passando os dias e as noites chorando de tris-
teza.
A sua maior alegria era ter uma filha, uma
menina muito formosa, que fosse por sua
morte a feliz herdeira dos seus domínios.
Passavam- se os annos e D. Gaspar jazia
sempre absorvido n'aquella continua angustia,
n'aquelle eterno martyrio. Porém^ uma linda
noite, passando o velho fidalgo pelos seus bos-
ques, gozando o bello luar, que enchia as ruas
de sombras movediças, D. Gaspar viu semi-
escondida no bosque uma linda menina ves-
tida de branco; foi ter com ella e disse-lhe :
— «Que faz por aqui, tão só n'estes ermos,
de noite i*!»
E a menina respondeu :
— «Fui despresada pela sorte bemfazeja e
procuro agasalho, tenho frio e fome.»
5o ÊM TERRAS DE PORTUGAL
— «E' d'aqui, d'estas terras? disse-lhe o
fidalgo, interessando-se muito pela menina.
. — «De longe venho, dizem que sou filha
da lua e ninguém me quer por ter sempre os
cabellos da côr do luar.»
— «Não te afflijas, virás comigo para o
meu palácio e alli viverás como uma prin-
ceza.»
A menina ficou muito contente e foi rece-
bida no palácio com as maiores honras. Houve
uma grande festa no castello, os sinos da ca-
pella repicaram, e a menina alli viveu muitos
annos em companhia de D. Gaspar que nunca
-mais teve um dia de tristeza.
— Ai que lindo, minha avó, o pae sabe
esta historia ? disse o pequeno cheio de curio-
sidade.
— Sabe, contei-lh'a muita vez, quando era
pequenino como tu.
— O' avosinha, disse a pequena, conte
outra, esta é tão pequenina ! Olhe, aquella da
filha do demónio. . . . .
— A branca Flor?
— Sim, sim, disseram os netos em coro.
— Era uma vez um grande rei que tinha
um filho chamado João, muito jogador. Uma
noite fugiu do palácio para correr mundo á
procura de aventuras. Chegou a uma terra e
entrou n'uma casa de jogo, n'essa noite perdeu
todo o dinheiro sendo ganho por um sujeito
que era o diabo em pessoa. A' sahida disse o
EM TERRAS DE PORTUGAL
5r
diabo a João ; ase queres conhecer o meu pa-
lácio, vae á ribeira aqui próxima onde existem
duas estradas, segue peia mais larga para en-
contrares o meu palácio. O príncipe assim fez,
porém quando chegou á ribeira encontrou
duas rapari-
gas, sendo a
mais nova mui-
to formosa.
João brincan-
do com esta,
fingiu tirar-lhe
uma roupa, ella
pediu-lhe mui-
to para que lhe
desse o fato e
que em troca o
auxiliaria, lin-
tão aconse-
Ihou-o a que
seguisse pela
estrada mais
estreita, pois
pela mais larga
seria morto.
ttOlhe, disse a rapariga, eu sou filha do dono
do palácio e chamo-me Branca Flor, não lhe
diga que me falou.» João agradeceu muito
aquellas boas palavras e poz-se a caminho.
O príncipe esteve bastante dias no palácio do
demónio, seguindo sempre ás escondidas os
KA VOLTA DO MERCADO
52 EM TERRAS DE PORTUGAL
conselhos da Branca Flor. Um dia o diabo
disse a João: aVae a um cerro com meio
alqueire de trigo para semear e no fim do dia
quero já ter pão cosido. o () pobre príncipe
partiu banhado cm lagrimas, vendo que era
impossível cumprir aquellas ordens! «Porque
choras?» disse Branca Flor; e o príncipe res-
pondeu : «Não posso cumprir as ordens de teu
pae.» Então Branca Flor, disse a João que se
encostasse ao seu peito. João adormeceu pro-
fundamente. Então a filha do diabo com a
varinha de condão, fez crescer o trigo^ foi de-
bulhado e cosido o pão. Quando o príncipe
acordou ficou radiante de contente. Como o
diabo visse que nada conseguia e tivesse no-
tado que tudo era obra de Branca Flor, resol-
veu mata-los. Então o príncipe e Branca Flor
fugiram, e apezar dos esforços do demónio
para os encontrar nunca poude conseguir. A
mulher do diabo disse então: «Quando o prín-
cipe receber o abraço da mãe, nunca mais se
lembrará de nossa filha.» E foi certo, porque
o príncipe chegou ao palácio e esqueceu-se
de Branca Flor. Esta desgostosa e triste ficou
morando sosinha, próximo ao palácio. Todos
fallavam a João n'aquella menina tão bonita
que alli niorava e um dia o príncipe quiz visi-
ta-la. Achou-a muito formosa, nias não a co-
nheceu! Mas Branca Flor bem sabia que a
culpa não era d'elle e então disse-lhe : «Per-
dou-te o esquecimento, tens bom coração.»
EM TERRAS DE PORTUGAL 53
Ficaram ambos muito contentes e d'ahi a
pouco tempo casaram, tendo liavido muitas
festas no palácio E acabou a historia.
As crianças riram muito e pediram á pobre
velha que desejavam ouvir no dia seguinte a
mesma historia
Se a avó cumpriu o pedido dos netos,
ignoro, mas é de crer que lhes contaria nova-
mente.
Ella não via outra coisa senão aqucUas
pobres crianças !
\'I
Por uma bella larde de fins de outubro,
quando a natureza comèç:a a sentir-se triste
como adivinhando os frios invernaes, em que
as folhas amareladas e murchas cahidas das
arvores se vão depositando em montículos
com a lama pelas valetas das estradas e pelos
atalhos, sahi da villa das Caldas e tomei a es-
trada de Rio Maior para visitar os lugares dos
Mosteiros e Vidaes.
O dia apresentava-se como um parenthesis
de belleza ás semanas seguidas de chuva e
forte ventania que me obrigaram a passar os
dias em casa.
Ia agora respirar um ar repassado de hu-
midade em que o cheiro do matto se apresenta
mais activo e penetrante.
O principio da estrada guarnece pelo lado
esquerdo toda a matta do hospital, sempre
subindo até se embrenhar depois em lindos
pinhaes que a tornam a mais pittoresca das
estradas.
D\im e d'outro lado avistam-se pequenas
terriolas, ao longe em horizonte largo fazendas
56
EM TERRAS DE PORTUGAL
amanhadas e diversas eiras. Moinhos ostentam
altivos as suas velas brancas que giram dolen-
temente, cortando o ar, gementes como suspi-
ros cortados pelas lagrimas da dôr. Pelos
valles e outeiros aquelles sons echoam prelu-
diando adágios de agonias lentas.
LM ii:i;( lio 11
Caminha-se depois pelo valle de Santa
Cecília, região assombreada por frondosas ar-
vores, em que a estrada na linha caprichosa
do seu traçado se alonga em curvas, poden-
do-se gozar a paysagem em diversos aspectos.
A estrada torna a subir novamente por entre
campos de sobreiros e oliveiras descendo d'ahi
a pouco para entrar na ponte da Matoeira,
EM TEITRAS DE PORTUGAL
5?
VALLE DE SANTA CECÍLIA
58
EM TERRAS DE PORTUGAL
Aqui OS campos mudam de aspecto, a na-
tureza reveste-se de novas galas, acabam os
pinhaes e lanços de estrada são assombreados
por altos choupos e cucalyptos ; campos de
t-^^r^r^FST^-
ARCO DA MLMoKlA
vinha, oliveiras e carvalhos acompanham a
estrada até Mosteiros e Vidaes.
A povoação dos Mosteiros é insignificante,
casas com aspecto pouco limpo, e outras des-
habitadas com as janellas cerradas, vidros par-
tidos, etc. ! A capellinha é bastante rústica com
porta para a estrada, mas^pelo lado da lim-
EM TERRAS DE I'ORTUGAL
59
ESTKADA DOS VIDAES
6o EM TERRAS Dl- PORTUGAL
peza forma um perfeito contraste com o resto
da aldeia.
Já a povoação dos Vidaes denota maior
importância. Dois prédios bastante grandes,
bellas quintas e magnificas adegas. Notei que
existe n'esta aldeia um certo gosto pelas flores!
A maior parte das casas têm á janella o seu
modesto vaso de sardinheiras, e pelas paredes
trepadeiras floridas. Assim o lugarejo reves-
te-se de uma ingénua alegria á mistura com o
labutar dos trabalhadores, e com o piar das
aves que sahem em bandos das copas dos
arvoredos.
Próximo d'esta aldeia no alto da serra de
Albardos existia até ha dois annos o Arco da
Mcmuri(T,[*) todo de cantaria, com cinco metros
de altura, tendo na parte superior a estatua
de D. Affonso Henriques. Este arco represen-
tava o primeiro marco dos coutos de Alco-
baça. Ha dois annos que este arco foi des-
truído parte pelo tempo e falta de reparação,
parte por mãos de vândalos que não respei-
tam nada, quando monumentos d'esta ordem
deveriam ser guardados e estimados como
(*) o meu amigo e distincto sportman o sr. Jorge de Almeida
Lima tendo notado o abandono a que estava^condemnado tal
monumento histórico, oíFereceu á então Real Assoi-iaçàn dos Ar-
queólogos Porttifjuezes iima photographia do Arco fazenda tam-
beni ver o seu abandono e ruina. Mais tarde o sr. Jorge ]jima re-
cebeu da Associação um honroso otficio dizendo que tinham sido
dadas serias i^rovidencias ! Isto foi no anno de 1910 I Hoje dis-
seram-me que nada existe ! ! 1
EM TEkftAS DE PÔRTUtíAL
verdadeiras relíquias. Hoje nada existe, se-
gundo me disseram, pedras espalhadas aqui e
alli, nada mais ! Geral desmasêlo da nossa
gente!
São paginas da nossa historia que vão
desapparecendo pouco a pouco e as novas
gerações d'aqui a annos não terão onde pos-
sam ver, analysar épocas remotas, testemunhas
vividas que o correr dos séculos não conse-
guiu derruir mas que o fraco senso dos homens
destroe em poucos annos !
VII
«Oh pátria minha, oh pátria «aicantadora,
Antigo alcáçar, Óbidos amada,
Se por braço infiel edificada,
Ha séculos da Cruz adorada.»
Silve'n-a Malhão.
Um dos arredores das Caldas mais digno
de ser visitado é decerto a villa d'Ohidos.
Óbidos! como este nome evoca paginas
da nossa historia! Ao entrarmos dentro dos
seus muros, quando percorremos as suas ruas
e becos, quando analysamos as suas egrejas e
cruzeiros, quando deparamos com seus anti-
gos nichos, iliuminados pelo clássico lampião
em ferro batido, quando emíim olhamos para
o seu castello em ruinas, temos a impressão
que vivemos em outra época bem difterente
da nossa !
E' uma terra que parece viver do seu pas-
sado ; dentro das suas grossas muralhas os
habitantes são descendentes de antigos heroes,
que a conquistaram com rara bravura ; vivem
como separados, isolados de todos, adorando
um passado brilhante que jamais poderá mor-
64
ÉM TERRAS DE PORTUGAL
rer pois está gravado para sempre na historia
portugueza !
A maior parte das famílias vão a Óbidos,
á laia de simples passeios, meros pretextos
para burricadas, nada mais !
Não! visitar Óbidos d'esta forma, chega a
ser um crime d'arte !
Ksta villa com o seu suggestivo aspecto
antigo é um constante livro aberto onde po-
VISTA GERAL d'oKIDOS
demos colher um numero infinito de elementos
curiosos para a nossa vida histórica. Dimana
de si própria uma constante força de belleza
tão característica que não se assemelha com
as demais terras d'esta região. Logo que a
avistamos ao longe coroada pelas torres do
castello, apresenta-se sob um prisma de
nobreza, de superioridade, verdadeiramente
altiva !
ÈM tEéiiAS DE PORTUGAL
65
Não contando com um pequeno numero
de casas que tem construído fora dos muros,
a villa é cercada por grandes muralhas com
ameias e diversas torres. Estas muralhas pos-
suem as seguintes portas : da Cerca, da Villa,
o CASTELLO DOBIDOS
do Telhai e do Valle. Tanto do alto do castcllo
como das muralhas avista-se um panorama
magnifico ; divisamos as Gaeiras, Quinta das
janellas, (*) Várzea da Rainlia, etc.
(*) Esta quinta è hoje propriedade do sr. Luiz Gama. Diz-nos
o Panorama, vol. V, o seo-uiute : «Foi pertencente a D. José
d' Alarcão, filho de D.José d'Alarcão e da condessa de S.Vicente.
Morreu n'esta quinta, d'uma cólica, a, 21 de julho de 1742 o in-
fante D. Fi'ancisco, irnião d"el-rei D. João V.»
66 EM TEliRAS DE POfetUGAt
Sobre a fundação d'esta villa nada po-
demos dizer de certeza, ha quem diga que
data do anno de i364 antes de Christo, mas
tudo isto são meras conjecturas. {*) Para nós
começa a ter importância apoz 1 1 de janeiro
de I 148, dia em que foi tomada aos mouros
por D. Affonso Henriques.
Entrando-se no castello, olhando para
todas aquellas pedras negras e carcomidas
pelas chuvas de mititos séculos parece que
nos dizem á nossa imaginação tudo que
sabem e que presenciaram ! E foi olhando para
aquellas ruinas que ellas me traduziram passa-
gens gloriosas da sua vida. Assim pude sinthe-
tisar no meu espirito alguns factos históricos ;
quanto Óbidos foi grande em lealdade a
D. Sancho II, resistindo cheia de coragem ao
cerco imposto por D. Aílonso III ; reconhe-
cendo-lhe depois tal valor que lhe deu o titulo
de sempre leal! A forma como o rei D. Diniz
cuidou com interesse d'esta villa mandando
(*) Segundo consta, em épocas remotas c-he.£2,'ou ali um braço
de mar, na estrada das Caldas a 'J'urres Vedras, perto do rio
Ai-noia que entra na lagoa d'0bidos e vae desaguar no Oceano
Atlântico. 'São admira que os teireuos, atravez dos séculos,
tenham soíírido tantas transformações e que hoje esse braço
do mar tivesse desapparecido. O chronista Frei Francisco Bran-
dão, meiado do século xvii, já notava que as areias davam causa
a obstruir-se o escoamento das aguas lluviaes. Diz elle que o rio
Alfeizirão, no reinado de D. Manuel, podia com oitenta navios
de alto bordo. No porto de S. Martinho o areiameuto já era no-
tável. Sobre o rio Alfeizirão devemos notar bastante exagero !
Por esta região d"Obidos havia grande numero de bosques
ojide abundavam cervos, javardos. coelhos, etc.
O Livro vermelho de D. Aítbnso V diz que na lagoa habita-
vam e se criavam Cisnes selvagens,
ÉM TEÍMíÀS de PORTUGAL
67
construir um castello sobre um enorme ro-
chedo, e dando o senhorio d'esta villa quando
do seu casamento á sua mulher a rainha santa
Isabel; o cuidado que teve D. Fernando em
UMA TOKUE ]J0 CASTELLO
mandar reparar certas muralhas e construir
outras, e por íim como esta villa assistiu aos
primeiros tiros entre as tropas portuguezas
aliadas com os inglezes contra os francezes,
realisando-se no dia seguinte, 1 6 de agosto de
1808, a batalha da Roliça, próximo d'Obidos.
68
EM TERRAS DE PORTUGAL
Estas datas vinham á minha mente umas
apoz outras e todas aquellas figuras que tanto
illustraram o nome portuguez, passavam rápi-
das perante mim como se sahissem d'aqueilas
ruinas, a faze-
rem lembrar ás
gerações mo-
dernas quanto
foram grandes
e quanio ama-
ram a sua Pa-
trifi !
• Quando sahi
do castello, era
já ao cahir da
tarde ; a villa
jazia sobre uma
ténue claridade
crepuscuhir, e
o sol desappa-
recia no hori-
zonte, lançan-
do as ultimas
resteas de luz
sobre toda aquella região banhada de silencio
e paz.
Rodrigues Cordeiro em poucas palavras
resumiu o valor da villa d'Obidos, e fê-lo de
uma forma tão suggestiva. que é quasi um
dever transcrever para aqui os seus brilhantes
períodos ;
UMA PORTA XO CASTELLO
EM TERRAS DE PORTUGAL
69
«Então era a lembrada dos reis, hoje é a
esquecida; então era a rica, a feliz, a namorada
do guerreiro, hoje é a decrépita, que ve car-
coiuida e quasi tombada a sua coroa de mu-
ralhas.
U.M TKKCHU DA VII.LA
chicomprehensiveis destinos humanos!
<• Para nós, que não podemos ser inditferen-
tes ás glorias da pátria, que não somos como
o villão que passa por uni homem de bem sem
lhe tirar o chapeo, porque lhe pê a face iucar-
quilhada e a capa velha, que não somos dos
70
EM TFRRAS DE PORTUGAL
que a matizam ou cobrem d'injurias porque a
vêem descida do throno, é Óbidos ainda :
«A veneranda, a coeva da monarchia, que
pode sorrir com desdém para os que vierem
EGUEJA DE SANTA MAUIA
depois, e a olham sobranceiros porque se
vêem agora mais ricos e mais considerados;
«A sempre leal, que pode levantar a fronte
desassombrada, olhar para Toledo, e fitar o
tumulo do infeliz D. Sancho II, como dizen-
EM TERRAS DE PORTUGAL
71
UVA. K CRUZKIRO
72
EM TERRAS DE PORTUGAL
do-lhe : — fui-te fiel, fui como a tua Coimbra,
e a tua Celorico, emquanto todas as outras te
trahiram.
«A nobre, que pode apontar para os seus
pergaminhos, e desvanece-se do seu brazão
d'armas — uma torre de prata assente sobre
CAPKLLA DAS GAEIRAS
rochedos, onde tremula uma bandeira — e do
seu aqueducto, dadiva de duas rainhas (D. Leo-
nor e D. Catharina) ; do seu roqueiro castello,
presente de um D. Diniz; da sua gloria de
haver sido escolhida para dote d'uma Isabel,
santa rainha de Portugal.
«A sabia, que pode rever-se em seus filhos
e mostrar á pátria, a par dos que são heroes
pelas armas, os que pela intelligencia e pela
EM TERRAS DK PORTUGAL
7-3
penna não são menos distinctos — um António
de Macedo Neto e Mello, um Fr. António de
S. Thomaz, um Fr. Dionizio Matoso, um Fr.
Estevão Annes, um Francisco Vaz Tagarro,
um João Campello de Macedo, um Fr. João da
Nazareth, um Fr. José de S. Rufo, um Fr. Luiz
o SKNIIOK DA l'EL)RA
de Sá, um Fr. Manuel da Cunha, um Fr. Mar-
tinho Pereira, um Fr. Miguel da Natividade,
uma Josepha d'Aiála, e os Malhóes — illustres
no trato das musas, distínctissimos na elo-
quência do púlpito.»
Sim, mais uma vez direi que é neccessario
visitar Óbidos, analysar a villa sob um aspecto
de rehquia valiosa, pois tudo possue um cara-
cter antigo que nos fascina. Quando visitamos
74 EM TERRAS DE PORTUGAL
as egrejas de Santa Maria, de S. Pedro,
de S. Martinho, (*) cada uma com os seus
quadros de valor, os seus túmulos, etc, a
nossa alma vibra perante todos aquelles
objectos que são testemunhas constantes de
tempos passados, épocas em que fumos gran-
des e notáveis.
Na egreja de Santa Maria ainda pude exe-
cutar no velho órgão um Preludio de Bach, e
toda aquella musica espalhou-se como por en-
canto por todo o ambiente sagrado que me ro-
deava ; tive então a illusão que um cortejo
d'anJos descera do ceu á terra para cantarem
a Deus um hymno de louvor. Fiz soar as uhi-
mas notas do Preludio e tudo jazeu no\'amente
no silencio continuo.
Muito próximo da villa d'Obidos existe
a egreja do Senhor da Pedra ^ digna de ser
também visitada. E' da época de D. João V,
as obras começaram em 1740 e foi aberta ao
culto em 1747. A parte exterior da egreja não
foi terminada por causa da morte do monar-
cha. A titulo de curiosidade direi que os mé-
dicos aconselharam a D. João V os banhos
das Caldas e logo se mandou concertar as
estradas e construir alli palácios de madeira
I*) Esta capella foi vendida o anno passado a lueu irmão
Visconde de Sacavém ijosé). Foi fundada pela família Lafeta,
natural de Cremoua e que viveu em Portugal. Tem por brazão
um castello de ouro em campo azul. Existem n"esta capella dois
túmulos em i^edra e varias inscripções. _
EM TERRAS DE PORTUGAL
75
para alojarem a corte, e foi o cardeal da Cunha
benzer as estradas, dias antes da partida do
rei. Apenas a corte chegou ás Caldas, o rei
recebeu innumeros presentes dos frades de
Alcobaça, constando de 69 vitellas, 194 pre-
i^f^^.^
t(JI,UMBKll!A
suntos, 182 queijos, 210 perus, 692 gallinhas,
12 cargas de fructa, 26 paios e 333 caixas
com doces. D. João V repartiu este presente
pelos cardeaes da Motta e da Cunha e pelos
frades arrabidos das Gaeiras mandando a estes
mais 2oorooo rs. Ao Senhor da Pedra enviou
10:000 cruzados para as obras da sua egreja.
76
EM TERRAS DE PORTUGAL
Direi também que D. João V e a sua corte
de regresso a Lisboa gastaram na jornada 12
horas. (*)
Outro passeio interessante é a S. Mamede,
Roliça e Columbeira, vendo-se no alio d'um
cAi'i;i,LA DK í;. ma.mi:;i>i;
monte um cruzeiro em memoria da iTioric do
tenente-coronel inglez Lake que fallcccu na
batalha entre portuguezes e inglezes contra as
tropas francezas.
A estrada é muito pittoresca atravessando
campos de vinha e olivèdos.
{*> 'Portugal ua ej^oca de D. João V». por Manuel Bernardes
Branco.
VIII
Em meia dúzia de quartos de papel, escri-
ptos sobre uma tosca mesa de pinho do meu
humilde gabinete d'aldeia, venho hoje dizer as
ultimas impressões da minha estada no campo,
as quaes me deixaram no espirito recordações
sagradas de saudade.
Não pude, é certo, deliciar o leitor com
elevadas flores de cstylo, resta-me ao menos
a consciência a dictar-me que procurei ser
sincero fazendo todo o possivel em traduzir,
atra vez da minha prosa, todos os encantos
que estas regiões me deixaram, momentos de-
liciosos, horas de um conforto moral admirá-
vel, dias em que a minha alma se elevou a
lugares de paz e socego.
E agora que estou a deixar d'aqui a horas
estes sitios, mais elles me despertam no meu
coração um vago estado de tristeza illuminada
por uma melancholia infinita.
Quando no comboio que me transportará
a Lisboa, vierem á minha mente estas paysa-
gens banhadas de luz, toda esta bôa gente que
tãa carinhosamente me tratou, sentirei uma
78 ÈM TERRAS DE PORTUGAL
profunda dôr, pensando nos mezes de ausên-
cia que terei, até vir visita-los de novo e con-
viver com elles.
O campo é um livro immenso, que todas
as vezes que o folheamos encontramos coisas
novas.
Um abysmo rasgado entre duas montanhas
desperta em nós, de cada vez que o contem-
plamos, phenomenos diversos. Um vergel flo-
rido recama-se aos nossos olhos de coloridos
ditlerentes. A solitária charneca atapetada de
carqueja em flor, ora nos dá a impressão de
alegria, ora nos faz nascer as ideias de dôr,
de grandeza.
O murmúrio dos rios, o gemer das fontes,
os cantos das aves, as canções das raparigas,
as eiras cor de ouro, tudo emfim nos desperta
uma serie infinita de pensamentos, de estados
d'alma que ficam gravados para jamais se
apagarem da nossa sensibilidade.
Podemos comparar o campo ás sympho-
nias de Beethoven, pois todas as vezes que as
ouvimos lhe encontramos compassos novos de
rara Belleza.
Lembro-me agora d'uma phrase de Michel
Epuy do seu brilhante livro sobre o Sentimento
da Natureia: <'Pour la nature surtout, ce qui
frappe douloureusement,c'est qu'elle est aimée
et ne le sait pas.-»
Dois dias de sol, após uma semana de
chuvas, deram-me ensejo de visitar dois luga-
EM TERRAS DE PORTUGAL
79
rejos que não conhecia, Failadia e S. Gregório.
A totalidade da estrada é lançada atravez
da charneca, dando-nos esta toda a força da
sua aridez. Mas em compensação, por momen-
tos, a nossa
vista espraia-
se em lindos
horizontes, ten-
do como fundo
as serras de Rio
Maior, desta-
cando-se com
as suas cores
azuladas, do
resto da natu-
reza verdejante
que se divisava
levemente.
Aqui e alli
pequenas po-
voações dão á
leia rústica um
lom de alegria
delicada e sim- fanadia
pies.
A Fanadia é a primeira aldeia que se en-
contra. Meia dúzia de casas dispostas á beira
da estrada ; ao terminar do lugar uma capeli-
nha interessante, e varias adegas.
Depois da Fanadia, á distancia talvez de
dois kilometroSj encontra-se em um pequeno
8o
EM TERRAS DE PORTUGAL
outeiro a capella de S. Gregório dominando
algumas fazendas de vinhas, oliveiras e vários
pinhaes.
Do lado op-
posto, sobre
um cerro, um
moinho bas-
tante caracte-
rístico faz lem-
brar um trecho
de campo hol-
landez.
D'ahi a pou-
co cntra-se no
kiiíar de S Gre-
!^ori().
\\ também
bastante insi-
gnificante, mas
muito mais pit-
toresco que a
Fanadia, pois
íica situado
n'um alto.
As casas são demasiado rústicas, e a mór
parte têm nas beiras dos telhados, renques de
abóboras a receberem os bellos e dourados
raios do sol.
Entre as casas, as costumadas estrumeiras,
á solta gallinhas, patos, porcos e até bois !
Todos em pleno convívio, a máxima liberdade !
S. GREGÓRIO
EM tÇRRAS DE PORTUGAL
8l
Como nota curiosa : fallando com um po-
bre velho e dizendo-lhe quanto aquelle lugar
íicava distante das* Caldas, tão inconveniente
para o mercado ao domingo, elle olhou para
mim com "aspecto serio e replicou-me :
— Para nós é um pouco longe lá isso é
verdade, mas para os senhores não ha longes,
UM MOIXHO
esses carros a fogo\ correm como o raio ! O
home inventa cada uma !
Conclui então que os carros a fogo eram
os automóveis.
Gente rústica e bondosa, almas simples
que nos encantam sempre!
Pela volta, ja o sol baixava no horizonte
enchendo a paysagem d'uma cor acobreada.
82 EM TERRAS DE PORTUGAL
A charneca apresentava-se como a ima-
gem da eterna tristeza, da infinita solidão,
A luz vermellia do poente, vista atravez
dos pinheiraes, dava-me a illusão d'um gran-
dioso e phantaslico incêndio, da terra em fogo!
As chaminés das casas lançavam aspiraes
de fumo muito branco, que se elevava pelos
ares, eram os últimos lumes do trabalhador, a
hora da ceia, depois. . . o somno reparador do
trabalho.
Em todo aquelle ambiente pairava uma
atmosphera de profundo mvsterio ; os campos
iani-se cobrindo com o manto da noite e atra-
vez das sombras cada vez mais carregadas
tive a illusão que o campo se.povoava de figu-
ras phantasticas, almas errantes. Imagens pas-
savam perante mim como sombras sinistras da
Dôr humana, e na minh'alma reflectia-se toda a
melancholia da Natureza, todo aquelle crepús-
culo sempre triste da noite.
No dia seguinte voltei ao lugar do Couto,
ao casal da Serralheira para assistir a uma
festa bastante sensibilisadora , festejava-se o
centenário de uma velhinha que nascera a 6
de outubro de iSij. Chama-se Mariana Rosa
Alves Trapalha. Além de uma filha, netos e
bisnetos tem um irmão com a edade de 96
annos.
EM TERRAS DE PORTUGAL
83
Houve jantar de familia, musica e fogue-
tes, verdadeira festa d'aldeia.
Todas as crianças dos lugares próximos
MAKIANA TRAPALHA
foram visitar a pobre velha que estava radiante
de contentamento ; foram anjos a conhecerem
aquella alma que em breve tempo subirá ás
regiões sagradas do mysterio e da paz eterna.
84 TM TERRAS DE PORTUGAL
Agora deixando estas regiões, levo na alma
bem gravado todo o esplendor, toda a força
csthelica d'estes sitios que têm para mim um
conjunclo de attractivos como só existem cm
terras de Portugal.
Caldas da Rainha
Agosto Novembro
1913.
ACABOU-SE DE IMPRIMIR ESIE LIVRO
AOS DOIS DE JANEIRO
DE MIL XOVECENTOS E QUATORZE NA
TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA FERIN,
EDITORA, RUA NOVA DO ALMADA,
NÚMEROS SETENTA A SETENTA E QUATRO^ NA
CIDADE DE LISBOA
p^ :f» >¥• 'f' i^. «V' 'í' ^ 'v* ^ 'f" ^ ' * 4 * 1. 1 X
r*?» ;i ^i f^.. Jj^> ■{■' < '. í)?" ^ 4'' ^ íf» ^» «|> ^ ^ <?•
r^i^'"!^
PLEASE DO NOT REMOVE
CARDS OR SLIPS FROM THIS POCKET
UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY ,
ti..
;:é^^
DP Pinto, Alfredo
525 Em terras de Portugal
P55
^.4. %.
•
ff* 4
^, .?» 4»